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Então,

no decorrer dos próximos seis meses, atenderei aqui:

RECHAVIA

Este blog permanecerá no ar, mas inativo, durante a minha estadia em Israel. Viajem comigo. Estejam comigo.

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Benny é o protagonista de “O Vídeo de Benny” (”Benny’s Video”, 1992) e passa a maior parte do tempo sozinho. Seus pais têm dinheiro e o presentearam com inúmeras tralhas eletrônicas. Ele gosta especialmente de sua câmera de vídeo. Certa vez, e essa é a imagem que abre o filme, gravou um porco sendo abatido com uma pistola de ar comprimido. Um dia, depois da aula, leva uma garota consigo para o apartamento. Comem, conversam, brincam, e depois ele a mata com aquela mesma pistola e grava tudo com a câmera. Com a mesma gratuidade com que matou a garota, Benny raspa a cabeça, agride um colega de sala e confessa o crime para seus pais da pior maneira possível, isto é, mostrando, sem aviso prévio, o vídeo para eles. Os pais, desorientados, acabam fazendo de tudo para encobrir o crime, inclusive tratando de se livrar do corpo. O desfecho é coerente com todas as ações irreflexivas do protagonista até ali.

Em seu segundo longa-metragem para o cinema, Michael Haneke parece mais à vontade com a sua própria sintaxe e entrega um filme mais redondo que “O Sétimo Continente” e a um passo da perfeição atingida em “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso”. A fragmentação e o distanciamento sublinham os gestos irreflexivos, as ações desmotivadas e a gratuidade inerentes aos personagens. As coisas simplesmente acontecem, e o enfoque é, reitero, tão distanciado que toda e qualquer interpretação fácil é desmontada antes mesmo de assentar na cabeça do espectador.

Ainda que a sequência do assassinato seja chocante, o que vem a seguir é ainda pior. Vemos Benny e sua mãe em uma idílica viagem ao Egito, por exemplo, mas o tempo todo imaginamos o que o pai, que ficou em casa para se livrar do corpo da garota, está fazendo. Como sempre acontece no cinema dos grandes mestres, o que não vemos é muito mais importante e, nesse caso, muito mais chocante.

Em “O Vídeo de Benny”, o que não vemos é terrível, ao ponto de, terminado o filme, ficarmos em dúvida sobre o que vimos e o que não vimos, se tal imagem de fato está no filme ou é apenas sugerida e assim por diante. O assassinato, por exemplo, é visto pela televisão ligada de Benny, por sua vez ligada à câmera de vídeo que a tudo registra, e acontece quase todo fora de quadro. Temos os gritos, alguns vultos, e não muito mais. Tudo o que o garoto faz de extraordinário e/ou aterrador aparece mediado pela imagem videográfica.

O distanciamento poderia sugerir, por si só, a desumanização daqueles personagens, mas não penso que seja assim. Há humanidade inscrita em cada fotograma de cada filme de Michael Haneke. Trata-se, por certo, da humanidade em estado terminal, desvinculada de qualquer “valor maior” em relação ao outro ou à vida, mas ainda humanidade, o que torna tudo ainda mais terrível e angustiante.

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Eu rejeito terminantemente toda e qualquer explicação de cunho sociológico, psicológico ou antropológico deste que é o primeiro longa-metragem para cinema dirigido por Michael Haneke, “O Sétimo Continente” (”Der Siebente Kontinent”, 1989). Mais do que nunca, e para roubar uma expressão que li em algum lugar, Haneke reitera a reificação humana por meio de uma história contada do ponto de vista dos objetos. Temos, então, uma família, pai, mãe e filhinha, que destrói tudo o que possui e depois se mata.

O filme é dividido em três partes. As duas primeiras, quase idênticas, descrevem a rotina daquelas pessoas: acordar, tomar café, ir ao trabalho ou à escola etc. Poucas coisas fogem da rotina, e o espectador embarca em uma sequência de atos corriqueiros filmados quase sempre da mesma forma. Em princípio, não vemos os rostos dos personagens e há uma insistência em focalizar os objetos que os rodeiam (rádio-relógio, pratos e talheres, agendas, canetas, papéis). A certa altura, na escola, a filha finge ter ficado cega. Mais tarde, é estupidamente repreendida pela mãe. Somos informados, também, de que o pai está em conflito com o chefe no trabalho. E temos a presença desesperadora do irmão da esposa em um jantar familiar. Estas situações dramáticas são mostradas com um distanciamento terrível e, ao contrário do que apregoam os manuais de roteiro, não têm quaisquer desdobramentos. A impressão é de estar vendo um documentário repleto de elipses, onde o diretor perdeu quilômetros de filme entre uma sequência e outra.

No terço final, acompanhamos a ação da família no sentido de destruir tudo o que têm e, depois, extinguir-se. Da mesma forma como, antes, nós os víamos em suas ações corriqueiras, agora os vemos rasgando suas roupas, destruindo os móveis, jogando o dinheiro na privada e, afinal, cometendo suicídio, um após o outro. Não há, por parte do diretor, o menor esforço para sublinhar essas cenas finais. A câmera e a montagem tratam esses momentos da mesma forma como trataram os momentos iniciais: com distanciamento.

Como sempre, muitas leituras são possíveis. Um libelo contra o capitalismo. Uma reação à reificação humana. Uma apologia de certo niilismo terminal. Um docudrama sobre uma família doentia. Um docudrama sobre uma família saudabilíssima. Nada disso importa, a meu ver. Haneke lança mão de seu domínio da técnica cinematográfica para abraçar o inexplicável e depois o jogar sobre nós. Não há “mensagem”. Como disse o diretor em uma entrevista em Cannes, quem deve se preocupar com “mensagens” são os correios. Tudo o que temos, portanto, são aquelas pessoas e o que elas fazem. E já é muito.

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Tenho a impressão de que, no cinema de Michael Haneke, o acaso sempre redundará em alguma espécie de violência. No estupendo “71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso” (”71 Fragmente einer Chronologie des Zufalls”), filme lançado em 1994, temos uma série de eventos cotidianos, muitas vezes desconexos, girando em torno de um evento também — e desgraçadamente — cotidiano: alguém entra atirando a esmo em um lugar repleto de gente.

Como o título já indica, o filme é fragmentado na maneira como expõe alguns dias das vidas de seus personagens. Tudo o que sabemos (ou imaginamos) desde o começo é que suas trajetórias terão como denominador comum o massacre ao final. O que impressiona é o talento de Haneke para escolher o que e quando mostrar. Assim, por mais banais que sejam as ações e inações mostradas na tela, nada está ali por acaso. Cada segundo de filme, cada pequeno fragmento ou sequência, traz informações preciosíssimas sobre aquelas pessoas, e há momentos (o refugiado romeno roubando uma revista em quadrinhos, o longo telefonema do velho para a família, o jantar do guarda do banco com sua esposa, o estudante treinando pingue-pongue, o casal deitado na cama) que, de tão “pequenos”, são asfixiantes.

Mesmo o massacre é filmado e montado à Haneke, ou seja, com uma objetividade esmagadora. Vemos o assassino entrar e atirar. Não vemos pessoas sendo atingidas ou coisa que o valha. Em seguida, um único fragmento resume toda a violência inerente ao acontecido: parte do corpo de alguém, de bruços, e uma poça de sangue crescendo. É tudo, e o efeito é muito mais devastador do que se acompanhássemos, graficamente, cada tiro sendo disparado e atingindo alguém.

Haneke é um mestre. Manipula o tempo como ninguém e consegue construir uma narrativa complexa e repleta de material humano a partir de não-momentos. “71 Fragmentos” é um filme quase que totalmente constituído por elipses, por pequenos abismos entre uma sequência e outra, abismos que parecem prestes a engolir todo o resto. A estruturação brilhantemente rígida é a única coisa que não permite acasos ou gratuidades.

Da FOLHA DE SÃO PAULO, edição de hoje.

Jornalismo cultural é tema de encontro em SP

Para o espanhol Juan Cruz, do “El País”, editores têm medo de se arriscar e reverenciam sempre os mesmos nomes

Escritor diz que a profissão hoje é refém de confidências e rumores que se espalham pela internet e cobra rigor e reação dos grandes jornais

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

“Nos dias de hoje, um novo João Ubaldo teria de se atirar das Torres Gêmeas ou de algo parecido para se fazer conhecido.” É com esse exemplo que o jornalista espanhol Juan Cruz, 60, ilustra a dificuldade e a negligência dos suplementos culturais para detectar novidades.
Para o escritor, principal convidado do 1º Congresso de Jornalismo Cultural, que começa hoje, a multiplicação de assuntos e tendências potencializada pela internet não tem encontrado eco nos meios impressos.
“Os cadernos de cultura estão ficando todos iguais. Os nomes reverenciados são sempre reverenciados e a novidade tem pouco espaço. Isso é um fenômeno mundial”, disse à Folha.
A explicação para tal fato, em sua opinião, é que, diante da cada vez mais difícil tarefa de identificar movimentos nas artes, os editores “se garantem apoiando-se no que é mais fácil”. A saber, apostam no que já foi ou é bom e conhecido e não se arriscam a tratar do que está por revelar-se, e que pode tanto ser bom como ruim.
Cruz concedeu entrevista por telefone, de Buenos Aires, onde ocorre, até 11 de maio, a feira do livro local (www.el-libro.org.ar). E usou-a como referência. “A quantidade de escritores e livros aqui é imensa, e os jornais locais entrevistaram as mesmas pessoas.”
E complementa: “Para um artista jovem se destacar nos dias de hoje, é preciso que aconteça com ele algo surpreendente e não necessariamente relacionado à sua obra”.
Cruz nasceu em Tenerife, é diretor-adjunto do diário “El País”, para o qual também faz entrevistas e artigos sobre cultura, e possui um blog (blogs.elpais.com/juan-cruz).
Entre 1992 e 1998, foi diretor da editora Alfaguara, o que o aproximou de grandes nomes e revelações da literatura hispânica e latino-americana.
Também escreveu livros, como “Toda la Vida Preguntando”, em que fala sobre as pessoas que conheceu em seus mais de 40 anos de carreira.
Entre seus entrevistados estiveram o cineasta sueco Ingmar Bergman e escritores como o peruano Mario Vargas Llosa e o uruguaio Juan Carlos Onetti. “É o tipo de jornalismo que gosto de fazer, um jornalismo de conversas”, resume.

Confidências
Outra constatação negativa que Cruz faz sobre o jornalismo dos nossos dias é a valorização das confidências e dos rumores. “A internet traz isso à tona, cria ou reforça detalhes atrativos e faz com que circule rapidamente.” Porém, diz, a rede não seria a única culpada. A reação dos que lidam com o noticiário “sério” deveria ser mais rigorosa. Ao conferir credibilidade a fontes incertas, prejudica-se o bom jornalismo.
“Muitas vezes vejo que nem sequer há a preocupação de atribuir crédito a quem dá a informação. Os jornais estão cheios da palavra “fontes”, de origem não identificada”.
Por fim, considera que a saída é fortalecer as marcas dos grandes jornais, para que imprimam respeito ao publicado.

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Em “A Troca”, de Clint Eastwood, há pelo menos uma cena capaz de figurar entre as melhores já concebidas pelo cineasta norte-americano: três policiais e um garoto no meio do nada, o garoto cavando com uma pá à procura de algo que, àquela altura, sabemos ser terrível. É uma cena tão avassaladora e filmada de uma maneira tão honesta e dura que, caso o espectador ainda não tenha sido capturado pelo filme até ali, aquele é o momento ou bye, bye.

Tanto se falou a respeito do imediatamente posterior “Gran Torino”, de fato um filme espetacular, que eu tenho a impressão de que “A Troca” não recebeu a atenção devida. Muito embora não seja redondo como “Menina de Ouro” ou “Os Imperdoáveis”, trata-se de um drama respeitável, conduzido com a fluência e a segurança habituais de Eastwood. Talvez a trilha-sonora destoe aqui e ali e Angelina Jolie esteja aquém do que a personagem exige (muito embora não chegue a comprometer seriamente o todo), mas são detalhes menores, ou não tão grandes, em um filme que se impõe pela clareza e elegância com que se desenvolve.

A cena com os policiais e o menino em “A Troca” é uma dessas coisas que costumam acontecer em filmes de Eastwood, um momento perdido que parece não significar muita coisa mas que, de repente, agarra o espectador e não solta. Eu me lembro de Gene Hackman surrando Richard Harris em “Os Imperdoáveis”, de Hilary Swank e o próprio Clint ao redor daquele speedbag em “Menina de Ouro”, de Sean Penn (”uma massa de pura desgraça humana”, segundo as palavras de Marcelo Miranda) na funerária em “Sobre Meninos e Lobos”, de Kevin Costner sendo alvejado pela primeira vez em “Um Mundo Perfeito” e, finalmente, do primeiro passeio de Clint e Meryl Streep em “As Pontes de Madison”.

TOP FIVE EASTWOOD

1. “Os Imperdoáveis”.
2. “Menina de Ouro”.
3. “Sobre Meninos e Lobos”.
4. “Gran Torino”.
5. “As Pontes de Madison”.

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Ele está sentado à minha direita e está falando. O cigarro aceso, sempre o cigarro aceso, como se fosse o mesmo cigarro desde sempre, um único interminável cigarro desde sempre, o cigarro aceso pende ora de sua mão direita, ora de sua boca enquanto ele diz você não faz idéia do que aconteceu, cara, estava tudo uma maravilha [estava tudo uma merda], a gente, você sabe, eu e ela, a gente voltou e decidiu que tudo ia ser diferente, ia mudar, a gente ia se esforçar e ia mudar [que tudo continuaria a mesma merda que sempre foi]. Eu não estava bebendo na festa [eu estava bebendo escondido porque ela tinha dito para eu não beber], estava tudo às mil maravilhas [era a mesma porcaria tediosa e cretina com as mesmas pessoas tediosas e cretinas de sempre] quando ela, sem mais nem menos, emburrou. Ele dá uma longa tragada e eu me seguro para não rir quando ele diz eu estou cansado, nunca sei o que é, o que é que acontece com ela para ela ficar assim, essas coisas sempre acontecem sem que eu faça o que quer que seja, eu não faço nada e [eu sempre sei, sou eu, claro, eu faço tudo o que não devia e a irrito e ela fica louca da vida comigo, com toda a razão, porque eu sou um]. Eu respiro fundo, sempre me segurando para não rir, e pergunto ela te proibiu de beber. Ele respira fundo, ele está sempre respirando fundo, respirando fundo e fumando e falando, ele respira fundo e diz com uma expressão similar à de um Danton prestes a ser guilhotinado ela acha que a bebida me deixa diferente [ela sacou que eu não sei beber e que a bebida me transforma em um completo idiota, em uma pessoa irritadiça estúpida carente paranóica], e eu te pergunto, meu amigo, você me conhece há quase vinte anos e eu te pergunto: a bebida me deixa diferente? Um pouquinho só que seja? Porra, eu sempre fui o mesmo, sóbrio ou bêbado, com ou sem grana, com ou sem mulher [eu sempre fui o mesmo]. Ele apaga o cigarro e acende outro e eu começo a me sentir extremamente cansado. Ela emburrou e, quando a gente veio embora, eu estava sóbrio [eu estava chapado], a gente veio embora, não, a gente foi direto para a casa dela e com muito custo eu contornei a situação [ela queria terminar e porque eu estava bêbado e chorando ela ficou com pena e não terminou]. Daí ela insistiu para que eu dormisse na casa dela, com ela [eu implorei para dormir na casa dela, com ela], e eu acabei concordando. No dia seguinte, logo cedo [passava das onze], a prima dela e o namorado apareceram e acordaram a gente [me acordaram, ela tinha se levantado às sete e meia]. O namorado da prima insistiu [eu insisti, e muito] para que bebêssemos uma ou duas [todas] cervejas e eu acabei concordando. Mais tarde, depois do almoço que eu fiz [ela fez], eu decidi ir embora [ela deixou bem claro que não me queria mais por lá] e ela escondeu a chave do carro [ela achou a chave que eu tinha perdido em algum momento no decorrer do dia] dizendo que eu estava bêbado [eu estava chapado]. Com muito custo [sem a menor dificuldade], peguei a chave, conversei com ela numa boa [ela terminou comigo] e vim embora dirigindo sem sustos [quase atropelei um velho em uma bicicleta, quase bati em uma lixeira, quase capotei o carro ao fazer uma curva fechada em uma rua estreita a noventa quilômetros por hora]. Ele apaga o segundo cigarro e acende o terceiro e, de repente, sem o menor aviso, começa a chorar desesperadamente enquanto diz eu sou um idiota [eu sou um idiota], eu sou um idiota [eu sou um idiota], eu. Espero ele parar de chorar e acender um outro cigarro e digo um médico teria dito a Diego Rivera que ele, Rivera, seria incapaz de ser monogâmico. Diego teria vibrado com o diagnóstico. Ele agora está pensativo, os olhos inchados, as mãos trêmulas, não entendo o que você está dizendo. O que você está dizendo? Nada, esquece. Quem é Diego Rivera? Eu respiro fundo, parece que eu também estou sempre respirando fundo, eu respiro fundo e falo Diego Rivera é o seguinte: Frida Kahlo estava em um jantar e Henry Ford também estava lá e Frida Kahlo sabia que Henry Ford era um tremendo antissemita. Então, Frida Kahlo se virou para Henry Ford e perguntou é verdade, senhor Ford, que o senhor é judeu.

É incrível que em Brasília, uma cidade tão hierarquicamente rígida, tão abertamente segregadora, e segregadora desde a sua construção, as cidades-satélites especialmente construídas a quilômetros e quilômetros do Plano Piloto para “acolher” aqueles que, de fato, erguiam a coisaconcreto, é inacreditável, maravilhoso, absurdo, enlouquecedor, inimaginável que, apesar de Brasília ser o que é, apesar de Brasília ser como é, é incrível que haja vida em Brasília.

Endo

Eu estava há pouco no Twitter exibindo a minha feroz ignorância acerca do tema PADRES JESUÍTAS PORTUGUESES NO JAPÃO DO SÉCULO XVII quando, em uma rara manifestação de bom senso, joguei essa coisarada no Google e encontrei um texto excelente sobre o romance “Silêncio”, de Shusaku Endo, o qual Martin Scorsese está adaptando para o cinema. O filme será lançado em 2010. Abaixo, o texto sobre o romance, diligentemente furtado DAQUI:

Agora que Martin Scorsese se prepara para adaptar ao cinema uma das obras mais conhecidas do escritor nipónico Shusaku Endo (1923-1996), torna-se relevante abordar aquele que é um dos seus romances mais importantes e mais lidos – “Silêncio” (Chinmoku), sobretudo quando a sua narrativa aborda um momento único (e muito pouco divulgado por estes lados…) na história das relações entre Portugal e o Japão.

Em 1643, o mundo cristão recebe com choque a notícia de que o padre português Cristóvão Ferreira, o missionário líder da Companhia de Jesus no Japão, considerado como uma espécie de paladino da fé cristã no oriente, apostatou. Em Lisboa, três jovens padres, Sebastião Rodrigues, Francisco Garrpe e Juan de Santa Maria, antigos discípulos de Ferreira, ficam atónitos com a perturbadora novidade e decidem partir para a terra do sol nascente em busca do seu mestre, procurando descobrir se realmente apostatou perante a tortura e, caso o tenha feito, quais as razões que o motivaram a abandonar a fé. Num contexto histórico em que os missionários portugueses, que haviam propagado a fé cristã no Japão no século anterior, estavam a ser perseguidos pelo shogunato de Tokugawa, a entrada clandestina em terras nipónicas pressupõe um ponto de não-retorno que os três padres decidem assumir incondicionalmente… mesmo que lhes custe as próprias vidas.

A narrativa centra-se na personagem de Sebastião Rodrigues. Chegado ao Japão, Rodrigues irá descobrir uma terra onde a religião cristã sobrevive com dificuldade nalgumas aldeias de camponeses, com os seus seguidores a serem perseguidos por um governo que cultiva a ideia de que “esta terra não é propícia aos ideais cristãos” e tortura todos aqueles que, secretamente, seguem ou professam o catolicismo até que estes reneguem a sua fé. Na sua missão de descobrir Ferreira e tentar manter viva o pouco que resta da fé cristã em terras japonesas, Rodrigues deparar-se-á com um conjunto de situações que lhe farão questionar a inacção do seu Deus perante tamanhas atrocidades ou, por outras palavras, o seu imenso e aterrador silêncio a que o título do livro alude. Sentindo-se abandonado a si mesmo numa terra estranha que lhe resiste, e desejando o martírio como fim glorioso para a sua existência terrena, Rodrigues encontrar-se-á perante o terrível dilema de ter de abdicar das suas crenças para salvar a vida daqueles que veio evangelizar ou manter-se fiel à Igreja sem, no entanto, cumprir os seus ideais de salvação de todos os homens.

De que nos fala, no fundo, “Silêncio”? Essencialmente, é uma história sobre a fé ou, melhor, sobre a dúvida como parte fundamental de qualquer crença religiosa sólida. A viagem de Rodrigues, mais do que uma simples demanda pelo seu mentor num território desconhecido, é, sobretudo, uma jornada de questionamento interior da sua própria fé no dogma cristão – horrorizado com o sofrimento dos camponeses japoneses, bem como com o cerco que se aperta em seu redor, Rodrigues depara-se com um conjunto de frustrações amargas que lhe farão rever e pôr em causa toda a sua adoração pela figura de martírio de Cristo – ao mesmo tempo que tenta, desesperadamente, não abdicar dos valores e da fé que o guiaram durante toda a sua vida. Não é difícil encontrar, nas dúvidas do protagonista, paralelismos com a vida do autor, nem tão pouco perceber o que o terá motivado a escrever este romance – o próprio Endo teve uma vida preenchida de conflitos com a sua fé cristã, e foi só através de um estudo aprofundado da vida de Cristo e da descoberta de que o lendário mártir também tivera dúvidas que o autor conseguiu conciliar-se com a sua fé e com o mundo.

Como refere Scorsese no excelente prefácio que assina para a recente edição da Peter Owen, outro dos factores determinantes na história é o realçar da importância da figura de Judas na saga bíblica – o seu papel é inúmeras vezes referido por Rodrigues, que, no seu período de formação, nunca compreendera totalmente a sua importância na mitologia cristã e que irá, ao longa da história, começar a perceber o significado da frase que Cristo lhe dirigiu: “O que tens a fazer, fá-lo depressa.” A figura de Judas, aliás, ganha uma curiosa personificação nessa personagem extraordinária que é Kichijiro, um pobre e fraco pedinte que assume, desde o início, a sua fraqueza, a sua corrupção, a sua incapacidade de se manter fiel perante as circunstâncias mais duras… portanto, a sua própria humanidade.

O que realmente surpreende na escrita de Endo é a extraordinária compreensão que demonstra ter pelas fraquezas e dúvidas das suas personagens – não estamos perante uma ficção com heróis duros e perfeitos, a dúvida e a insegurança são uma constante nos pensamentos de Rodrigues e o autor, com inegável mestria, consegue descrever estes sentimentos sem entrarmos numa escrita exclusivamente centrada na primeira pessoa e, acima de tudo, sem nos fazer perder o interesse pelo desenrolar da história. Não estamos tão pouco perante um panfleto anti-cristão ou meramente denunciante da perseguição japonesa aos missionários portugueses. O objectivo de Endo parece ser o de mostrar que a verdadeira fé (seja ela cristã, budista ou muçulmana) não consiste numa obediência cega e militante dos dogmas religiosos mas, antes, numa constante (re)interpretação das grandes narrativas canónicas e no respeito pelo valor da vida humana.

Mais do que uma mera história sobre religião, e mais do que um simples romance histórico, “Silêncio” de Shusaku Endo é um romance notável que urge descobrir, seja nas suas versões em inglês ou francês, enquanto uma nova edição portuguesa (que, provavelmente, só será publicada aquando da estreia do filme de Scorsese…) não chega.

Ricardo Gonçalves

Em tempo: edições antigas de “O Silêncio” podem ser encontradas na Estante Virtual com preços bem camaradas.

“Acho que estou gripando”, disse, no episódio de “Law and Order” que passou ontem , o procurador interpretado por Sam Waterston. A última fala do episódio mais recente, temporada atual. Um sinal?

Leitura indispensável para esses dias: “O mez da grippe”, de Valêncio Xavier.

Uma amiga me dizendo que morrer de gripe é algo romântico. Eu não vejo romantismo algum em morrer como quer que seja. Morrer é só mais uma coisa que a gente costuma fazer, em geral a última.

Acho que estou gripando.

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