Perdiídiche

André de Leones / weblog

A abertura do Mar Vermelho.

No “Guerra e Paz” de Liev Tolstói (Cosac Naify, tradução de Rubens Figueiredo), há essa passagem em que, ferido na Batalha de Austerlitz, Bolkónski olha para o alto:

(…) Acima dele, já não havia nada, senão o céu – um céu alto, não claro, mesmo assim incomensuravelmente alto, com nuvens cinzentas que deslizavam tranquilas. (…)

No meu entender, parar a descrição de uma das maiores batalhas da História, parar o próprio tempo, e deter-se em um personagem que, estatelado no chão, naquele momento e naquelas circunstâncias, fita o céu, equivale, literariamente, à abertura do Mar Vermelho. Tolstói é o meu Moisés.

Angelopoulos.

Theo Angelopoulos morreu. Tinha 76 anos. Seus “Paisagem na Neblina”, “Um Olhar a Cada Dia” (lançados no Brasil em excelentes edições da Lume) e “A Eternidade e Um Dia” são viagens belíssimas, algo como a atualização da memória (pessoal, histórica, da Grécia, da Europa) em imagens, longos planos-sequência que sugerem, tranquilos, a impermanência de tudo. O paradoxo inerente a isso (os filmes permanecem, não?) não é bem um consolo, sobretudo neste período em que vivemos. Angelopoulos morreu trabalhando, vítima de um acidente estúpido.

De verdade.

Incrível como os iranianos sempre me surpreendem para o bem. Vi hoje o filme de Asghar Farhadi A Separação, dos mais belos e lancinantes. Ele está bem distante dos estilos que eu me acostumei a associar ao cinema iraniano, de Kiarostami, Makhmalbaf e outros. Não há qualquer discussão de cunho metalinguístico, explícita ou implicitamente. O filme não poderia ser mais simples e eficiente. Cinema narrativo clássico, que se aproveita lindamente de algumas elipses justamente para incrementar o conflito, ou conflitos. E, não menos importante, os personagens são contrapostos sem maniqueísmos. Eles mudam de tom, de cor e se afastam mais e mais uns dos outros, inapelavelmente. Parecem de verdade.

Fé.

Sinais, de M. Night Shyamalah, é essa obra-prima de sugestão, um dos melhores trabalhos do diretor (ao lado de “A Vila”). O trabalho de câmera, por exemplo, é primoroso. Há cenas em que Shyamalan elimina o contra-campo e somos “obrigados” a observar com todo o cuidado um quadro muitas vezes estático, em que “nada” acontece dentro dele e tudo acontece interiormente, nos personagens, ou (nas cenas de ação e suspense) fora do quadro. É filme de uma delicadeza tremenda, sobretudo quando assume de vez que não é bem sobre uma invasão alienígena, mas a respeito de um homem renegando, questionando e, afinal, recuperando a fé, tudo narrado com tamanhas beleza e sofisticação que até agnósticos como eu se emocionam, e muito. O diálogo entre o protagonista e seu irmão, diante de televisão ligada alta noite com notícias que eles ainda não sabem se boas ou ruins, e a sequência do jantar são dois ótimos exemplos de passagens que jogam o filme nas alturas (sem trocadilho) ao mostrar (em vez de dizer) onde se encontram os personagens, afetiva, psicológica e metafisicamente. O mesmo acontece no epílogo, uma panorâmica na qual a passagem do tempo é denunciada pelo que entrevemos através das janelas e onde, ao final, sabemos (porque vemos) onde está o personagem principal em relação à sua própria fé. Por um momento, suspendemos quaisquer dúvidas e é como se todos acreditássemos com ele. Creio que isso é Shyamalan operando um milagre.

Abismo.

Engraçada a surpresa geral com o fato de “Tropa de Elite 2″ não estar sequer entre os pré-selecionados ao Oscar. Com sua narração em off isenta de ironia, o filme, a exemplo do primeiro, é o gozo da classe média assustadiça e burra que vota em Alckmin, Cabral e afins, aplaude PM espancando universitário e viciado em crack e acha que o problema está em Brasília, quando Brasília, na verdade, não passa de um sintoma. O primeiro filme era ainda mais grave. José Padilha emulava “Os Bons Companheiros” sem perceber que, no filme de Scorsese, texto e imagem jamais coincidiam, uma vez que esta sempre colocava em crise e ironizava aquele. Nos “Tropa de Elite”, não há distanciamento, não há ironia, não há reflexão. Há o abismo da desinteligência fílmica, sociológica e moral. Nesse sentido, os filmes de Padilha também são, em sua pobreza ética e estética, um sintoma dos mais graves.

Roché.

Lendo trechos de “Jules e Jim”, o romance de Henri-Pierre Roché, penso que é o tipo de coisa capaz de emprestar alegria aos olhos de qualquer um.

Era 1907.
O pequeno e atarracado Jules, estrangeiro em Paris, havia pedido ao alto e magro Jim, a quem mal conhecia, que o infiltrasse no Bal des Quat-z’ Arts, e Jim arranjara-lhe um convite e o levara à loja de fantasias. Foi enquanto Jules bisbilhotava os tecidos, e escolhia uma simples fantasia de escravo, que nasceu a amizade de Jim por Jules. Ela cresceu durante o baile, quando Jules mostrou-se sereno, olhos feito bolas, cheios de humor e ternura.
No dia seguinte tiveram a primeira conversa de verdade. Jules não tinha mulher em sua vida parisiense e desejava uma. Jim tinha muitas. Apresentou-lhe uma jovem musicista. O começo pareceu favorável. Jules ficou ligeiramente apaixonado durante uma semana, e ela também. Depois Jules achou-a cerebral demais, e ela o achou irônico e plácido.
Jules e Jim viam-se todos os dias. Um ensinava ao outro, até tarde da noite, sua língua e sua literatura. Mostravam seus poemas um ao outro e os traduziam juntos. Conversavam com vagar, e nunca nenhum dos dois tivera ouvinte tão atento. Os fregueses do bar logo lhes atribuíram, à sua revelia, hábitos especiais.

Incrível o modo como Roché utiliza incessantemente os nomes dos personagens no decorrer do texto sem que isso se torne maçante. Pelo contrário, cria um efeito quase hipnótico, e em poucas linhas é como se estivéssemos ali, num daqueles cafés parisienses, tendo Jim e Jules sentados à mesa vizinha, papeando. Tudo é assim, de uma singeleza e de uma simplicidade absurdas, e os personagens-título aparecem desde o início como figuras algo fantasmagóricas. Sim, são todos fantasmas, e o livro carrega o peso do século XX como se não se desse conta disso. Não por acaso, ele é atravessado por uma guerra, a Primeira.

Ouvindo uma partida de tênis.

Eu deixo a televisão ligada na sala e volta e meia ouço o que acontece. Gosto do som de uma partida de tênis, os baques secos das raquetes contra a bola, o esforço físico concentrado num grunhido breve ou prolongado, e então o som da audiência, palmas e gritos. É uma espécie de celebração, breve como deveria ser toda e qualquer celebração, e depois o silêncio da espera pelo ponto seguinte. Sim, há esse momento quase transcendente, de espera, quando o sacador deixa de quicar a bola e a atira para o alto, e o adversário retesa o corpo, tenso, aguardando o saque, receber a bola, o instante certo para responder à altura, se for possível, se houver como. É um momento pesado para os que estão em quadra, esse que precede o saque propriamente dito, tanto para quem serve quanto para quem recebe, mas levíssimo para os que estamos aqui fora, como se não apenas a bola, mas tudo e todos flutuassem também, sem peso algum, e é como se a Criação inteira prendesse a respiração e acompanhasse, em câmera-lenta, a bolinha que sobe como se não precisasse descer nunca mais.

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