Perdiídiche

André de Leones / weblog

Tudo, nada.

Trecho de Bonsai, de Alejandro Zambra.

“Digamos que este será meu romance mais pessoal. É bem diferente dos anteriores. Vou resumi-lo um pouco para você: ele fica sabendo que uma namorada de sua juventude morreu. Como faz todas as manhãs, liga o rádio e ouve no obituário o nome da mulher. Dois nomes e dois sobrenomes. Tudo começa assim.
“Tudo o quê?
“Tudo, absolutamente tudo. Bem, eu ligo para você, assim que tomar uma decisão.
“E o que mais acontece?
“Nada, o de sempre. Tudo vai para o saco. (…)”

Paraty.

Agora, é oficial. Estarei da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP 2012. Participarei de uma mesa no dia 05/07, às 10hs, com Altair Martins e Carlos de Brito e Mello. O mediador será o professor e ensaísta João Cezar de Castro Rocha e o tema, “Escritas da finitude”. Você pode encontrar detalhes sobre a mesa AQUI. E eles também fizeram uma página bem legal a meu respeito bem AQUI. Os ingressos começarão a ser vendidos no dia 04 de junho.

Pobre Europa.

Trechos do conto “O incidente de Rosewell”, de Irvine Welsh (*):

“Mas foda-se. Jimmy bocejou e se espreguiçou, sentindo o agradável despertar de seus membros. Sempre se tendia a seguir a linha de menor resistência. Qual era a alternativa? Ele pensou nos pais, agora separados, com suas pitorescas noções de ‘respeito’, trazidas de uma era de pleno emprego e salários mais ou menos decentes, naufragando no cruel e depressivo vazio que os cercava agora. Não conseguia respeitá-los, nem conseguia respeitar a sociedade. Não podia nem mesmo respeitar a si mesmo, apenas juntar-se a seu grupo de amigos para fazer com que os outros o respeitassem, de uma maneira que se tornava mais limitada e proscrita a cada dia que passava. Você tinha que simplesmente se manter junto a seus amigos e certificar-se de que havia um túnel claro à frente, na esperança de um mundo melhor se e quando emergisse na luz.”

“Cola sempre fora a droga preferida de Jimmy. Ele adorava a forte corrente de vapor, o modo como aquilo grudava nos pulmões, suspendendo a respiração. Sabia que isso significava que ele não viveria muito tempo, mas cada velho da cidade parecia tão infeliz, porra, que não lhe parecia haver vantagem real na longevidade. Era a qualidade de vida que contava, e ele achava que era melhor viver drogado do que entrar na porra de um esquema de treinamento para um empreguinho, ouvindo um babaca de cara vermelha gritar, e depois de dois anos despedir você a fim de abrir vaga para o próximo puto idiota. Se os outros putos não enxergavam isso, então, pelo que Jimmy podia perceber, eles não tinham a porra de um cérebro.”

(*) Em Requentando Repolhos
[trad.: Paulo Reis e Sergio Moraes Rego - Ed. Rocco].

Notas sobre um almoço no Dia das Mães.

Salompas mordeu Stella. Federer venceu Berdych. Cozinhei frango e arroz e feijão. Maria Eugênia fez salada. Stella trouxe sobremesa. Alisson me informava o placar do jogo enquanto eu cozinhava. Veio à mesa um papo sobre futebol. Discursei sobre como o esporte diz muito do Brasil etc. O mesmo argumento vale para as telenovelas, retrucaram. No sentido mesmo de desqualificar. Discordei e em seguida me contradisse. Porque é claro que vale. Por mais que eu odeie telenovelas. A impressão de que eu falava de outra coisa. Falávamos todos. Não estava particularmente interessado. Gostar ou não gostar disso ou daquilo. Incorrer em antinomias. Stella foi visitar uma amiga centenária. Não é uma árvore, explicou. A pessoa se despede e então vira pó. Há quem não se despeça. Às vezes não dá tempo. Ou não se tem vontade. Despedir-se para quê? Você fecha os olhos e pronto. Tomara que seja apenas isso. Não precisamos de mais. Achamos que sim, mas. Ora, falo por mim. Terra, breu, pó. Fim. Estava um pouco frio ontem. Hoje está mais. Liguei para a minha mãe logo cedo. Conversa rápida. Acho que ela tinha visitas. Ou talvez eu tivesse, não me lembro.

Apenas diabo e bruxaria.

A certa altura de Psicogênese das Doenças Mentais, o alegre Carl Gustav Jung nos conta que:

“(…) Há cerca de quatorze anos, trato de uma mulher que tem agora sessenta e quatro anos. Não a vejo mais do que quinze vezes por ano. Ela é esquizofrênica e por duas vezes foi trazida para a clínica com uma psicose aguda, aí permanecendo por muitos meses. Ouvia inúmeras vozes que se distribuíam por todo seu corpo. Consegui encontrar uma voz bastante racional e útil. Tentei aperfeiçoá-la, e o resultado foi que o lado direito do corpo livrou-se das vozes há dois anos. Apenas o lado esquerdo continuou sob o jugo do inconsciente. Depois disso não sofreu novos ataques. Infelizmente, ela não é inteligente e tem uma mentalidade medieval primitiva. Só consegui estabelecer com ela uma boa relação, adaptando minha terminologia à terminologia do primeiro período da Idade Média — não havia mais alucinações, apenas diabo e bruxaria.”

[Trad.: Márcia de Sá Cavalcanti - Ed. Vozes, 1986.]

Fúrias.

Rogério Borges, no jornal O Popular de hoje:

“A maior chacina registrada em Goiás e que ocasiona um dos maiores traumas da história da polícia goiana faz lembrar entidades terríveis da mitologia grega. As Erínias – Tisífone, Megera e Alecto – representavam o castigo e o rancor intermináveis. Elas eram incumbidas de punir os mortais e promover a vingança, sobretudo quanto a crimes em que sangue houvesse sido derramado. Era uma punição ao livre arbítrio da maldade humana e à fatalidade do destino tecido pelos deuses. Em ambos os casos, não havia perdão ou misericórdia. Quando Truman Capote escreveu o clássico A Sangue Frio, ele descreveu os assassinos de toda uma família na zona rural do Kansas – algo semelhante ao que ocorreu em Doverlândia – como homens que não tiveram essa misericórdia para com suas vítimas ao dar vazão à desrazão. No livro, baseado em um atroz fato real, tenta-se entender o que motiva uma pessoa a disseminar desastres sobre quem nem conhece. Não há uma conclusão e sim um sentimento de impotência diante do inexplicável, do irreconhecível.
“Aparecido vai entrar na triste história dos homens que não aplacaram suas fúrias, que não mediram seus desastres, que não foram perdoados pelo destino. As pessoas que acabaram vitimadas por força tão descomunal – que surge quando menos esperamos, onde menos suspeitamos e atingem quem sabemos que não merece – também estiveram impotentes, na maldade e na fatalidade que alçaram o jovem a protagonista de duas imensas tragédias, de dois enormes desastres. Não há como explicar o imponderável, não há como se defender do imprevisível, não há como compreender algo que está além de qualquer justificativa. Em um de seus trabalhos mais geniais, o escritor Henry James diz que o mal a uma criança só é pior quando cometido contra duas crianças porque, assim, duplica-se um horror que já é indizível. No caso de Aparecido, à chacina de sete pessoas seguiu-se a morte de mais sete e de sua própria. Ao ignóbil somou-se o impensável. Quantos desastres podem haver em uma única mão?”

Tatear.

A certa altura do romance “A travessia”, de Cormac McCarthy, nós nos deparamos com um cego e ele nos diz várias coisas.

“(…) Disse que a luz do mundo estava apenas nos olhos dos homens porque o próprio mundo se movia na treva eterna e a treva era sua verdadeira natureza e sua verdadeira condição e que nessa treva girava com perfeita coesão em todas as partes mas que nada havia nelas para ver. Disse que o mundo era sensível em seu cerne e secreto e negro para além da imaginação humana e que sua natureza não residia naquilo que podia ou não podia ser visto. Disse que podia olhar o sol mas qual era a serventia disso?”.

Leio isso e me lembro de Heidegger em “O fim da filosofia e a tarefa do pensamento”, quando nos fala da “clareira do ocultar-se”, “o ocultar-se, o velamento, a ‘Lethé’ faz parte da ‘A-létheia’, não como um puro acréscimo, não como a sombra faz parte da luz, mas como o coração da ‘Alétheia’”, algo como “um proteger e conservar”.

O cego de McCarthy não remete a um mundo ideal, platônico, em que a “verdadeira natureza” se revelasse, mas, sim, a uma treva em que todas as partes giram em “perfeita coesão”, mas em que não há nada para se ver. Talvez o que o cego diz tenha a ver com a clareira heideggeriana, a clareira que “não será pura clareira da presença, mas clareira da presença que se vela, clareira da proteção que se vela”.

Seja como for, estamos condenados a tatear.

Até porque, tanto para o cego de McCarthy quanto para Heidegger e, claro, para nós, “o mundo e tudo o que ele contém” não passam de “um rumor”, “uma suspeita”, e o máximo que podemos fazer é especular e discorrer sobre essas “trevas incomensuráveis”.

Não há mesmo qualquer serventia em olhar para o sol.

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