A certa altura do romance “A travessia”, de Cormac McCarthy, nós nos deparamos com um cego e ele nos diz várias coisas.
“(…) Disse que a luz do mundo estava apenas nos olhos dos homens porque o próprio mundo se movia na treva eterna e a treva era sua verdadeira natureza e sua verdadeira condição e que nessa treva girava com perfeita coesão em todas as partes mas que nada havia nelas para ver. Disse que o mundo era sensível em seu cerne e secreto e negro para além da imaginação humana e que sua natureza não residia naquilo que podia ou não podia ser visto. Disse que podia olhar o sol mas qual era a serventia disso?”.
Leio isso e me lembro de Heidegger em “O fim da filosofia e a tarefa do pensamento”, quando nos fala da “clareira do ocultar-se”, “o ocultar-se, o velamento, a ‘Lethé’ faz parte da ‘A-létheia’, não como um puro acréscimo, não como a sombra faz parte da luz, mas como o coração da ‘Alétheia’”, algo como “um proteger e conservar”.
O cego de McCarthy não remete a um mundo ideal, platônico, em que a “verdadeira natureza” se revelasse, mas, sim, a uma treva em que todas as partes giram em “perfeita coesão”, mas em que não há nada para se ver. Talvez o que o cego diz tenha a ver com a clareira heideggeriana, a clareira que “não será pura clareira da presença, mas clareira da presença que se vela, clareira da proteção que se vela”.
Seja como for, estamos condenados a tatear.
Até porque, tanto para o cego de McCarthy quanto para Heidegger e, claro, para nós, “o mundo e tudo o que ele contém” não passam de “um rumor”, “uma suspeita”, e o máximo que podemos fazer é especular e discorrer sobre essas “trevas incomensuráveis”.
Não há mesmo qualquer serventia em olhar para o sol.
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