Alguns parágrafos sobre “Dentes negros” (e outras coisas).

by André de Leones

Dentes negros, romance lançado pela Rocco que autografo hoje na Livraria da Vila a partir das 18:30hs (conforme divulguei AQUI), é a terceira das narrativas longas que, há pouco mais de dez anos, quando morava em Brasília e rascunhava uns contos bem toscos, comecei a esboçar.

Naquela época, anotei que precisava (sic) escrever um romance sobre crescer em Silvânia em meio a toda aquela esquizofrenia (educação católica de um lado, porres & putaria de outro) e não se matar (estou aqui, não estou?), outro sobre alguém jovem que se descobre doente e, bem, decide não fazer nada a respeito, e, por fim, uma história apocalíptica ou pós-apocalíptica, porque (eu não me canso de repetir) o fim do mundo é sempre uma boa ideia. Estão aí, portanto, “Hoje está um dia morto”, “Aneurisma” (novela que fecha o meu segundo livro, “Paz na terra entre os monstros”) e “Dentes negros”.

Entre os projetos de números dois e três, ou quando eu já tinha começado a trabalhar no terceiro, algo aconteceu: “Como desaparecer completamente”, romance encomendado que quase me fez abortar “Dentes negros”.

É engraçado pensar em mim dez, onze anos atrás meio que antecipando essas coisas. “Dia Morto” foi gestado como um roteiro de cinema ali por 2003 e só depois transformado em romance, nos dois anos seguintes; “Aneurisma”, que ainda considero a melhor coisa que escrevi, nasceu com uma facilidade incrível e jamais reprisada no decorrer de 2006; e “Dentes negros”, que em tudo antecipou as enormes dificuldades que tenho hoje para escrever a narrativa na qual venho trabalhando desde maio de 2009, começou a ser escrito em fins de 2006 e foi interrompido em abril de 2007 para que “Como desaparecer completamente” aparecesse, depois retomado e terminado no decorrer de 2008.

É curioso como, ao retomá-lo, utilizei algumas coisas que tinha aprendido ao escrever, a toque de caixa (fui idiota o bastante para respeitar o prazo que me deram), “Como desaparecer completamente”: a estrutura em blocos narrativos bem definidos e constituídos por capítulos curtos. Pode parecer bobagem, mas, quando eu me aventurei a estancar um romance para investir em outro e depois voltar àquele, foi essa estrutura fragmentada que me permitiu fazê-lo, impedindo que acontecesse um aborto.

Além disso, a escrita de “Dentes negros” foi muito importante para que eu mantivesse alguma sanidade quando o meu casamento degringolou e eu me vi completamente sozinho, falido e emputecido em uma cidade estranha, cheia de gente esquisita. Separar-me e voltar para outra cidade estranha, cheia de gente esquisita (Silvânia), não foi o melhor, mas que escolha eu tinha então? Por sorte, havia o senhor W. e aquela outra cidade, também estranha etc., chamada Catalão, onde passei a me esconder com uma frequência assustadora e, enfim, terminei de escrever “Dentes negros”.

Conceber um romance (pós-)apocalíptico no decorrer do pior momento psicológico, afetivo e profissional pelo qual passei certamente ajudou a conferir graça e leveza (para os meus padrões) a “Dentes negros”. De tudo o que escrevi até então, é a narrativa mais contida e menos desbragada que engendrei. Ela não passa nem perto da visceralidade de “Hoje está um dia morto” ou do tom despudorado de “Como desaparecer completamente”. Não obstante a violência de algumas passagens, é uma história narrada com distanciamento, silêncio e retidão. Eu não poderia almejar um apocalipse melhor. Espero que vocês também.