Fé.
by André de Leones

Sinais, de M. Night Shyamalah, é essa obra-prima de sugestão, um dos melhores trabalhos do diretor (ao lado de “A Vila”). O trabalho de câmera, por exemplo, é primoroso. Há cenas em que Shyamalan elimina o contra-campo e somos “obrigados” a observar com todo o cuidado um quadro muitas vezes estático, em que “nada” acontece dentro dele e tudo acontece interiormente, nos personagens, ou (nas cenas de ação e suspense) fora do quadro. É filme de uma delicadeza tremenda, sobretudo quando assume de vez que não é bem sobre uma invasão alienígena, mas a respeito de um homem renegando, questionando e, afinal, recuperando a fé, tudo narrado com tamanhas beleza e sofisticação que até agnósticos como eu se emocionam, e muito. O diálogo entre o protagonista e seu irmão, diante de televisão ligada alta noite com notícias que eles ainda não sabem se boas ou ruins, e a sequência do jantar são dois ótimos exemplos de passagens que jogam o filme nas alturas (sem trocadilho) ao mostrar (em vez de dizer) onde se encontram os personagens, afetiva, psicológica e metafisicamente. O mesmo acontece no epílogo, uma panorâmica na qual a passagem do tempo é denunciada pelo que entrevemos através das janelas e onde, ao final, sabemos (porque vemos) onde está o personagem principal em relação à sua própria fé. Por um momento, suspendemos quaisquer dúvidas e é como se todos acreditássemos com ele. Creio que isso é Shyamalan operando um milagre.

Você não sabe como me alegra ver alguém como você, que sabe do que está falando, demonstrando toda a beleza de filmes como ‘sinais, ‘a vila’, ‘a dama do lago’. sou fã desse cara e no entanto as pessoas insistem em dizer o quanto os filmes decaíram, o quanto nenhum se iguala ao ‘sexto sentido’. ele é genial. e ah, o que você me diz sobre o ‘corpo fechado’?
abs
thiago tenório
Oi, Thiago.
O que é engraçado é que, de todos os filmes dele que vi, “O Sexto Sentido” é, para o meu gosto, o menos relevante. Claro, é um belo filme, também, mas gosto muito mais dos que vieram a seguir.
Acho “Corpo Fechado” uma homenagem bacaníssima aos quadrinhos, e viajo legal naquele clima sombrio (lembro o quanto a fotografia é escura), em que tudo parece estar por um fio, sempre, o tempo todo. Aprecio também a lentidão do filme.
Abração.