Fé.

by André de Leones

Sinais, de M. Night Shyamalah, é essa obra-prima de sugestão, um dos melhores trabalhos do diretor (ao lado de “A Vila”). O trabalho de câmera, por exemplo, é primoroso. Há cenas em que Shyamalan elimina o contra-campo e somos “obrigados” a observar com todo o cuidado um quadro muitas vezes estático, em que “nada” acontece dentro dele e tudo acontece interiormente, nos personagens, ou (nas cenas de ação e suspense) fora do quadro. É filme de uma delicadeza tremenda, sobretudo quando assume de vez que não é bem sobre uma invasão alienígena, mas a respeito de um homem renegando, questionando e, afinal, recuperando a fé, tudo narrado com tamanhas beleza e sofisticação que até agnósticos como eu se emocionam, e muito. O diálogo entre o protagonista e seu irmão, diante de televisão ligada alta noite com notícias que eles ainda não sabem se boas ou ruins, e a sequência do jantar são dois ótimos exemplos de passagens que jogam o filme nas alturas (sem trocadilho) ao mostrar (em vez de dizer) onde se encontram os personagens, afetiva, psicológica e metafisicamente. O mesmo acontece no epílogo, uma panorâmica na qual a passagem do tempo é denunciada pelo que entrevemos através das janelas e onde, ao final, sabemos (porque vemos) onde está o personagem principal em relação à sua própria fé. Por um momento, suspendemos quaisquer dúvidas e é como se todos acreditássemos com ele. Creio que isso é Shyamalan operando um milagre.