Perdiídiche

André de Leones / weblog

A abertura do Mar Vermelho.

No “Guerra e Paz” de Liev Tolstói (Cosac Naify, tradução de Rubens Figueiredo), há essa passagem em que, ferido na Batalha de Austerlitz, Bolkónski olha para o alto:

(…) Acima dele, já não havia nada, senão o céu – um céu alto, não claro, mesmo assim incomensuravelmente alto, com nuvens cinzentas que deslizavam tranquilas. (…)

No meu entender, parar a descrição de uma das maiores batalhas da História, parar o próprio tempo, e deter-se em um personagem que, estatelado no chão, naquele momento e naquelas circunstâncias, fita o céu, equivale, literariamente, à abertura do Mar Vermelho. Tolstói é o meu Moisés.

Angelopoulos.

Theo Angelopoulos morreu. Tinha 76 anos. Seus “Paisagem na Neblina”, “Um Olhar a Cada Dia” (lançados no Brasil em excelentes edições da Lume) e “A Eternidade e Um Dia” são viagens belíssimas, algo como a atualização da memória (pessoal, histórica, da Grécia, da Europa) em imagens, longos planos-sequência que sugerem, tranquilos, a impermanência de tudo. O paradoxo inerente a isso (os filmes permanecem, não?) não é bem um consolo, sobretudo neste período em que vivemos. Angelopoulos morreu trabalhando, vítima de um acidente estúpido.

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